15 desatinónimos para Fernando Pessoa

domingo, fevereiro 04, 2007

Teimoso 73

Esta é a história de Osvaldo (O.), o 73º heterónimo de Fernando Pessoa. Uma história de hombridade, sacrifício, coerência e muita teimosia. Esta é a História D’O.
O. nasceu numa despensa cheia de brinquedos velhos. Teve uma infância perfeitamente normal e o seu maior amigo foi Pinóquio, com quem descobriu os prazeres do sexo, masturbando-se nos nós da madeira e comparando o tamanho dos narizes.
— Gostava tanto de ser o Cyrano — desabafava Pinóquio com frequência.
— Pede ao Gepetto — respondia O., a quem todos tratavam por Osvaldinho, na altura.
A vida correu sempre bem a Osvaldinho. Era aplicado na escola e só tinha um ligeiro bloqueio com o 7x9 e com a palavra obsessão, que confundia frequentemente com obcecado.
Mas o desabrochar para a vida pode revelar a crueldade do mundo. Fernando António, o seu progenitor, bem lhe dizia: “Não aceites charros de estranhos. Não aceites boleias perto de monumentos nacionais. Não entres em filmes pornográficos de baixo orçamento. Não aceites participar em reality shows. Não leias o ‘Ulisses’, do Joyce, todo de seguida. E salta o prefácio, senão nem consegues começar”.
Osvaldinho assim fez. Mas os perigos são tantos no mundo de hoje que é difícil cobrir todas as possibilidades. Depois, é tudo uma questão de sorte. E o azar bateu à porta de Osvaldinho numa tarde de Dezembro, à saída do Circo Mariano.
A última coisa de que Osvaldinho se lembra é de ver os palhaços a pedir aos miúdos para bater palminhas. Depois, sentiu um lenço na cara e acordou com uma grande dor de cabeça, num sítio muito escuro.
Gritou imenso e pediu socorro. Ouvia vozes, mas não podia precisar se eram de homem, mulher ou criança. A fome era muita. A sede também. Já para não falar do frio e da humidade.
Quando nasceu o dia, Osvaldo percebeu que estava prisioneiro numa masmorra miserável, que nem sequer possuía condições mínimas para as ratazanas. Conseguiu amarinhar até uma pequena janela que dava para a rua. Chovia a potes. Trovejava. Havia raios e coriscos.
A pesada porta de ferro abriu-se de repente. Um maravilhoso mulherão de metro e 80 de altura, Mademoiselle Corinix, sorriu-lhe com a boca toda e passou-lhe a mão pela testa:
— Tens febre, Osvaldinho ?
Osvaldinho sorriu, pensou que o pesadelo estava para acabar, que tudo não passara de um sonho mau. Ia acordar no circo e bater muitas palmas aos palhaços. Mas só teve direito a uma garrafa de “Napoléon” e um livro de contos de terror do Edgar Alan Poe.
— Por agora, não consegui trazer-te mais nada. E mesmo isto foi às escondidas de Madame Terezinha.
Mademoiselle Corinix deu-lhe um beijinho na testa e saiu, a abanar as ancas, como se estivesse a desfilar no Carnaval do Rio.
Osvaldinho, que era um puro de alma, pôs-se a pensar bastante e descobriu que tinha de ser cem por cento racional. Não havia nada a fazer naquele momento. E tratou de recuperar forças, bebendo meia garrafa de “Napoléon” e lendo cinco contos do Edgar.
Duas horas depois achava que a masmorra devia ter ar condicionado. Quando Madame Terezinha entrou, Osvaldinho estava em tronco nu, a rir sozinho e a imitar o orantotango que entrava nos filmes do Clint Eastwood.
Madame Terezinha (Tereza Vibra-Golpes de nome de baptismo) era uma mulher interessante, encadernada por um fato de cabedal negro e botas de tacão alto. Tinha o rosto bonito emoldurado por maquilhagem preto-e-prata, como o salão do Casino Estoril.
— Olá, Osvaldinho. Chamo-me Madame Terezinha. Não te quero fazer nenhum mal. Se colaborares, não te vai acontecer nada e podes juntar-te rapidamente ao Fernando António. Mas se ofereceres qualquer tipo de resistência, fica sabendo que posso ser cruel. Para já, não te digo mais nada. Vou-te deixar um tabuleiro com comida e um álbum de banda desenhada do Guido Crepax. Logo à noite volto, para saber a tua resposta.
Osvaldinho achou aquilo deveras estranho e misterioso. Quem era a bizarra Madame Terezinha e o que podia querer dele? Quem era Mademoiselle Corinix, com uma expressão tão fina e delicada?
Pouco depois, Mademoiselle Corinix voltou a entrar na masmorra, trazendo almofadas, uma cama de água portátil, cobertores, dois pares de belíssimos candelabros (comprados na Feira da Ladra a um toxicodependente em último grau) e uma pastilha “Easy Date”.
— Toma, é um calmante.
Osvaldinho, com o coração prenhe de boa fé, tomou a pastilha sem desconfianças. Duas horas depois, Mademoiselle Corinix abandonou a masmorra, com um sorriso de plena satisfação. Osvaldinho não se lembra bem do que aconteceu, mas tem a certeza de que Mademoiselle Corinix lhe deu um beijinho na testa antes de sair.

No outro dia, Osvaldinho acordou cansado, mas feliz, embora não soubesse explicar porquê. Quando Madame Terezinha entrou na masmorra do Castelo de Roissy, com duas panteras negras pela trela, Osvaldinho tinha decidido não fazer nada que fosse proíbido pela Convenção de Genebra.
— Madame Terezinha, eu não quero incomodar, mas só lhe posso dizer o meu nome e a minha patente.
As panteras negras (muito inteligentes e com uma vida sexual activa, o que dá sempre boa disposição) atiraram-se para o chão, perdidas de riso. Sim, porque tinham aprendido a rir com as hienas da masmorra 1111, onde estava detido um quarteto musical.
— Osvaldinho, não se trata disso. Preciso de ti para duas coisas: primeiro, para escravo sexual da Rainha Má da Branca de Neve, que é uma convidada de cerimónia e já me estragou muitos criados. Segundo, quero que assines uma declaração a garantir-me os direitos de merchandising do teu heterónimo. O mercado é muito concorrencial e temos de estar um lance à frente da competição.
Osvaldinho, apesar de ser uma alma cândida, percebeu que aquilo era mais uma golpada de SAD, SGPS ou outro esquema qualquer marado. Népias, é o assinas.
— Aceito a 50 por cento. Quando a Madame quiser mudo-me para o quarto da Rainha Má.
Madame Terezinha sorriu, mas notou-se algum desconforto na sua face. Uma das panteras abanou a cabeça em sinal de desaprovação e constrangimento. A outra sentou-se e coçou uma orelha com a pata esquerda. Sem perder mais tempo, Madame Terezinha deu meia-volta. Osvaldinho ainda ouviu nitidamente a última frase, que já não lhe soou bem:
— Talvez mudes de ideias depois de passares uma noite com Mademoiselle Corinix.
A menos que houvesse ali qualquer cena à Luís de Matos, Osvaldinho não estava a perceber bem qual era o problema. Mademoiselle Corinix era muito simpática e usava um perfume soberbo: Chinelo 5.
Ao fim da tarde já não pensava da mesma forma. Mademoiselle Corinix tinha entrado na masmorra com um fato todo cheio de pregos, uma coleira de Yorkshire Terrier e um cachecol dos Ultras Roissy.
Agrilhoou Osvaldinho às paredes frias e húmidas, de costas viradas ao público, chicoteou-o com toda a força que os seus lindos braços lhe permitiam e depois perguntou-lhe com uma voz que cheirava a fel:
— Então, Osvaldo, assinas ou não?
Osvaldinho não assinou, numa atitude que muitos podem considerar como um grave erro existencial. Mademoiselle Corinix não esteve com contemplações. Já tinha visto tudo o que queria.
Muniu-se de um “strap-on” do mais duro latex do planeta e sodomizou Osvaldinho com uma frialdade digna de um cubo de gelo gronelandês, depois de ter rodado um anúncio de frigoríficos no pólo norte.
Escusado será dizer, sem lubrificante.
Osvaldinho foi deixado só na masmorra, sem comida nem bebida.
Nessa noite, chorou muito. Lembrou-se do Pinóquio e de todos os amigos que tinha deixado para trás. Fazia-lhe muita confusão que Mademoiselle Corinix o tivesse penalizado daquela forma. Osvaldinho não tinha feito nada. Aprendeu a lição mais dura da sua existência: uma SAD, uma SGPS, quando querem, acabam sempre por ir ao pacote de um cidadão isolado. Não adianta resistir.
No outro dia, foi transferido para uma masmorra mais luminosa, onde havia uma grande arca. Permaneceu amarrado durante 16 horas seguidas. Depois, Madame Terezinha chegou à masmorra com um vestido transparente laranja, sapatos verde-alface e um véu róseo a tapar-lhe o rosto.
— Assinas?
Osvaldinho não assinou e foi metido na arca.
Não queria entrar, mas depressa percebeu que não era de bom tom resistir ao chicote de Tereza Vibra-Golpes.
Quando o cadeado foi fechado, Osvaldinho virou-se para trás e compreendeu que a arca era muito maior do que parecia. Sob a aparência de uma vulgar arca para heterónimos, possuía a complexidade subterrânea de um palácio.
— Olha lá, pá, despacha-te. Estão a servir o ponche das dez da noite. Depois só há groguinho ao pequeno-almoço.
Quem assim falava era o heterónimo 85, que também não tinha assinado nada.
— Pois é, eu sou o Fernando Whitman, um heterónimo à moda de Walt Whitman. Tenho um livro intitulado “Folhas de graxa”. Mas a vaca da Vibra-Golpes não o edita enquanto eu não assinar. Sem a autorização dela nada pode sair da arca. A Corinix também te aviou?

Osvaldinho foi-se integrando na comunidade dos heterónimos e passou ao estado adulto sem dar por nada. A vida dentro da arca estava muito organizada e não faltava leitura. Mas a esperança era coisa que poucos tinham. Enquanto não cedessem aos interesses perversos da gerência do Castelo de Roissy, não havia hipótese nenhuma de voltar a uma vida normal.
— Mas a polícia não faz nada ? — perguntou Osvaldinho ao Fernando Whitman, ao terceiro dia de encarceramento na arca.
— Isso sim. Estão todos feitos uns com os outros. Isto dos heterónimos é um grande negócio. Não faltam arcas pelo mundo fora. Nunca ouviste falar da Resistência?
Osvaldinho nunca tinha ouvido falar. Parece que havia movimentos subversivos por todo o Mundo. Os mais activos eram liderados por heterónimos de Mário de Carvalho e António Lobo Antunes. O Marinho Sueco (heterónimo 13 de Mário de Carvalho) costumava utilizar uma singela palavra de ordem para convocar as reuniões secretas: “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”. O “Danças com Lobos” (heterónimo 17 de António Lobo Antunes) dava a contra-senha: “Não entres tão depressa nesta noite escura”.
O presidente da Assembleia-Geral da Resistência era o Pequeno Príncipe (heterónimo 15 de Carlos Reis, que tinha fugido de um armário da Biblioteca Nacional disfarçado com uma barba à Alexandre Herculano), que começava sempre os trabalhos da seguinte forma:
— Bem-vindos a mais uma sessão de trabalho da Resistência dos Heterónimos Literários. Hoje vamos votar mais uma proposta de evasão, que nos chegou dos nossos colegas americanos. O heterónimo 127 de Brett Easton Ellis pede autorização para seguir em frente com um plano de fuga da arca maior de Alcatraz. Quem vota a favor? Quem vota contra? Quem se abstém? Aprovado por unanimidade. Senhor secretário, registe em acta, por obséquio, que o heterónimo 127 do nosso camarada americano pode fugir quando quiser. Nada mais por hoje. Até à próxima Assembleia.
Aos poucos, os heterónimos de Fernando Pessoa foram fenecendo ao bafio da arca, mirrados de esperança, bloqueados por crises criativas, fartos de ler os mesmo livros, ver as mesmas caras.

Osvaldinho decidiu resistir até poder. Passados muitos anos, só havia dois heterónimos de Fernando Pessoa na arca do Castelo de Roissy: Osvaldinho e Abade Faria, o pseudónimo escolástico, que se tentou evadir num saco de roupa suja. Mas como a roupa suja era muita no meio literário, enganou-se no saco e acabou por ir desembocar na Academia Sueca. Foi recapturado e hoje ainda cumpre pena numa cave do Palácio da Pena, em Sintra, mesmo ao lado de Little Ludwig, o pseudónimo louco de Luís Da Baviera, aprisionado quando participava no Troféu BMW sem carta de condução.

Era óptimo poder acabar esta história com um final feliz.
Infelizmente, por exigências de programação, tal não é possível.
Osvaldinho ainda vai continuar preso por muito tempo.
Fica para a próxima.
Esta foi a História D’O.

Von Grazen, 13/3/2003, 06h25m

2 Comments:

  • Tadinho do Osvaldinho, nem um bocado de KY para facilitar as coisas... movimento de resistência dos heterónimos? Excelente ideia, às vezes parece que vivem em compartimentos estanque não comunicativos.

    By Blogger Maríita, at 3:47 da tarde  

  • Pois é, nem me dignei suavizar-lhe o sofrimento com KY.

    "KY Jelly: gel lubrificante íntimo. Suave e seguro. Base aquosa. Johnson and Johnson".

    Eu levo sempre para o Inatel, para colocar depois das derrotas no ténis de mesa.

    By Anonymous Luís Graça, at 7:39 da tarde  

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