15 desatinónimos para Fernando Pessoa

domingo, fevereiro 18, 2007

'Tá tudo na maior?

— ‘Tá tudo na maior?
— Iééééééééé!
— Não ‘tou a ouvir nada!
— IÉÉÉÉÉÉÉ!
— Assim, sim. Boa noite, Lisboa.

Rock in Rio em Lisboa. Mais uma edição a caminho do sucesso. O promotor Fernando Pessoa acertara na “mouche” outra vez. Para além de coordenador do festival, era ainda o ‘manager’ da banda do momento, os “Village Persons”: Bernie Soares, Álvaro Fields, Ricky Reis e Al Caeiro.

— E agora, a banda que todos esperavam, no palco principal da Bela Vista, para encerrar da melhor forma a edição deste ano: os “Village Persons”!

Mal Fernando Pessoa acabou de anunciar a banda, um enorme “bruá” subiu aos céus, fazendo-se ouvir até à Alameda Afonso Henriques. Cerca de 120 mil pessoas (a antiga lotação do Estádio da Luz) em delírio ovacionaram a banda que o país inteiro consagrou.
Os holofotes varreram o palco e incidiram sobre o quarteto de luso-americanos, que optou por entrar em cena ao som de um dos grandes ‘hits’ do grupo: “In the poetry”.
“Na poesia, é onde gostas de criar, na poesia, versos feitos para amar... we want you... we want you... we want you as a new recruit... larilolé... larilas... olé!... e quem não salta não é poeta... e quem não salta... não é poeta!”.
Apesar da veterania da banda, o facto é que o concerto de encerramento do Rock in Rio funcionava como uma gigantesca ponte de união entre três gerações. Ao seu lado, a catarse musical de Paul McCartney ou Peter Gabriel não passara de uma brincadeira de crianças.
Al Caeiro, com as suas raízes campestres, estava vestido de chefe índio, como habitualmente, em homenagem à Associação de Amizade Cernancelhe-Connecticut; Bernie Soares, para não variar, dava nas vistas com os seus cabedais negros à ‘motard’; Ricky Reis era o marujo de serviço, com um estetoscópio ao pescoço; por fim, Álvaro Fields marcava presença como o polícia da estrada.

— Olá, Lisboa! É uma alegria enorme estar aqui no Rock in Rio — gritou Bernie Soares, o líder da banda, no final do primeiro tema de um concerto que tinha a duração prevista de três horas.
— E agora, com muito amor e carinho e um abraço especial para todos os emigrantes que estão a passar férias em Lisboa e andam lá fora a lutar pela vida... vamos tocar “A meio do outeiro”, uma composição do Al Caeiro.
Num fabuloso espectáculo de luz, cor e alegria, “A meio do outeiro” arrebatou a multidão, inteiramente conquistada pelas brilhantes coreografias da banda, que misturavam sabiamente o “disco”, o “soul”, o “funk” e o folclore português, com um ligeiro toque de madressilva e Madredeus.
“Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro/Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava./ Ele é o humano que é natural/Ele é o divino que sorri e que brinca./E por isso é que eu sei com toda a certeza/Que ele é o Menino Jesus verdadeiro”.
De rostos colados, todos à volta do microfone de Bernie Soares (o “lead singer”), Al Caeiro, Ricky Reis e Álvaro Fields conferiam um enorme “feeling” ao refrão: “Menino Jesus, Menino Jesus, Menino Jesuuuus verdadeeeeiroooo”.
Mais atrás, uma loira, uma ruiva, uma morena e uma chavala de cabeleira afro tratavam dos coros: “A meio do outeiro, a meio do outeiro, a meio do outeiro... só tu... só tu... Menino Jesus... verdadeiro... verdadeiro... a meio do outeiro”.
Centenas de T-shirts brancas com letras negras eram agitadas pelos fãs: “A meio do outeiro, Albert Caeiro”. Ou então T-shirts negras com letras brancas: “Ricky Reis: Doctor, Doctor, give me the news, bad case of loving you”.
As miúdas do coro estavam frenéticas no seu metro e 80, mais as botas negras de tacões altos, para combinar com os vestidos prateados brilhantes, colados ao corpo, com um decote sugestivo. Uma perfeita simetria de carnes, odores e movimentos.
No meio da multidão, estudantes universitários carregavam barris de cerveja às costas, com uma bandeirinha a sobressair do conjunto, estilo carrinho de choque da defunta Feira Popular. Os fãs, ávidos, consumiam cerveja às toneladas, mantendo, apesar disso, um comportamento irrepreeensível.

A noite estrelada convidava à fraternidade e à troca de intimidades. Os olhares dos fãs cruzavam-se insistentemente pelo meio dos decibéis, à espera de um heliporto do afecto onde acostar. À espera de um colo maternal feito doca.
— Obrigado, Lisboa! We love you! Vocês são uma audiência do mais great que há! Sinceramente trully! Palavra de honour! É uma grande honra para nós estar a actuar aqui. Viemos directos dos States só p’ra vocês!
Palmas. Aplausos. Histerismos vários. Aquelas coisas habituais nos concertos, não é? É preciso dar um certo desconto.
— Mas não foi sacrifice nenhum. Foi um verdadeiro pleasure! A gente voou de Newark, disse adeus à estátua da Liberty e pensou que vinha dar alegria aos nossos queridos portugueses. Nós somos 45 por cento americanos, 45 portugueses e 10 por cento não respondem/não sabem. Mas acima de tudo a nossa ária é a língua portuguesa!
Mais um tema. Mais uma voltinha. Mais uma viagem. É entrar, meus senhores, é entrar!
— Obrigado, Lisboa! Aqui a cantar para vocês, neste maravilhoso palco, as lágrimas escorrem-me pelo rosto. E eu gosto de ter as lágrimas a escorrer pelo rosto. Obrigado, Lisboa! Mas infelizmente, pelo mundo fora, há muitas crianças a chorar de fome. Crianças que não choram de alegria, como eu, neste momento, aqui convosco. Por isso gostava de vos dizer duas ou três coisas nesta noite de amor...
A multidão não deixou Bernie Soares prosseguir. Bastou uma fã de mamas a abanar ao vento proferir a palavra mágica: “Bernie! Bernie! Bernie!”. Logo os milhares de fãs se puseram a repetir o alakazam do fanatismo musical: “Bernie! Bernie!Bernie!”.
Bernie queria prosseguir. Bernie queria andar para a frente e não conseguia. Faltava-lhe espaço afectivo. Faltava-lhe uma aberta entre os fãs. Bernie levantou os braços e tentou continuar:
— Muito obrigado! We love you! Thank you, Lisbon. Portugal é grande!
A multidão apanhou o lamiré e mudou de palavra de ordem:
— Portugal! Portugal! Portugal!

Milhares de bandeiras que tinham sobrado do Euro-2004 emanciparam-se das mãos dos fãs e começaram a bailar na atmosfera, autênticos bailarinos russos em pontas.
— Obrigado, Portugal! Obrigado, Lisboa! Mas deixem-me dizer...
A multidão não deixava. Se não fosse o controlo apertado da segurança, quase se poderia dizer que uma considerável parte da multidão estava “pedrada”. Mas faz algum sentido falar disto num festival musical?
Finalmente, o senhor Soares lá conseguiu passar a sua mensagem:
— Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez. A monotonia das vidas vulgares é, aparentemente, pavorosa. Estou almoçando neste restaurante vulgar, e olho, para além do balcão, para a figura do cozinheiro e, aqui ao pé de mim, para o criado já velho que me serve, como há trinta anos, creio, serve nesta casa. Que vidas são as destes homens? Está há 40 anos em Lisboa e nunca foi sequer à Rotunda, nem a um teatro!

Dois fãs que seguiam os “Village Persons” para todo o lado entraram em diálogo:
— O gajo já fez este discurso em Copenhaga, há dois meses!
— Pois foi. Trocou só as cidades e a profissão do velho. Em Copenhaga era um carpinteiro.
— Mas onde é que o gajo vai buscar estas coisas?
— Então não sabes?
— Não...
— Livro do Desassossego, página 183, Assírio e Alvim.
— Ah! pois é...

Bernie Soares anunciou a canção seguinte do alinhamento que os “Village Persons” cumpriam com a devoção de uma seita secreta:
— E agora um tema de Álvaro Fields, composto já há bastante tempo, quando éramos jovens. Mas ainda nos sentimos bastante jovens. Uma composição de Álvaro Fields: “ Freddie”.
E o grupo lá atacou a balada:
“Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te/Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim/Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes/viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingindo e a minha consciência incerta/Mary, eu sou infeliz/Freddie, eu sou infeliz”.

Acenderam-se isqueiros, iniciaram-se em ofuscantes cintilações nocturnas aqueles coisinhos verde-alface e aqueles coisinhos rosa que são vendidos a pataco. Os braços da multidão ao jeito das vozes, de um lado para o outro, de um outro para o lado, como uma espiga ao vento nos verdes trigais em flor.
E depois Bernie Soares cedeu um bocadichinho de protagonismo ao Ricky Reis e ele veio anunciar a presença-surpresa de um convidado muito especial:
— E agora temos uma surpresa para vocês. É um homem de um sucesso enorme, respeitado em todo o mundo. Estava muito sossegadinho na tenda VIP, lá bem ao fundo, naquelas colinas distantes, a tentar passar despercebido. Mas nós fomos lá buscá-lo. Perdemos um bom bocado a convencê-lo, mas é com grande prazer que posso anunciar que o convidámos a vir cantar um tema do Álvaro Fields. Meus amigos e minhas amigas, é um sumo privilégio poder anunciar a presença neste estaminé de um grande senhor do mundo da canção, de um grande senhor da canção e de um grande senhor do mundo: Roberto Leal!

Roberto Leal entrou em cena no seu trote habitual de Alter, imaculadamente branco, com uma discreta publicidade institucional à Olá nas costas do casaco.

— Boa-noite, Lisboa! Olá, brasileiros deste país! Hello, everybody! My name is Leal, Roberto Leal. Shaken, not coiso-e-tal.

E o raio do homem agarrou logo a audiência. Passou o microfone por cima da cabeça, passou o microfone por baixo das pernas, passou o microfone por trás das costas. Pouca gente sabe, mas Roberto Leal fez um estágio no Chapiteau, na Costa do Castelo, quando era jovem.

— Lisboa, estás preparada? Então, aqui vai. De Álvaro Fields, “Meu coração postigo”.
“Meu coração clube, sala, plateia, capacho, guichet, portaló/Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial/Meu coração postigo/Meu coração encomenda/Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega/Meu coração a margem, o limite, a súmula, o índice/Eh-lá,eh-lá,eh-lá, bazar o meu coração”.

Mais um delírio. Mais outro grande momento para a história da música. Até as ameaças de nuvem se balançaram no swing compassado da voz Leal. E Bernie Soares voltou para o volante do microfone.

— Há muitos intelectuais que não gostam do Roberto Leal. E dão a sua opinião. Mas uma opinião é uma grosseria, mesmo quando não é sincera. Toda a sinceridade é uma intolerância. Não há liberais sinceros. De resto, não há liberais.
Ah! é um erro doloroso e crasso aquela distinção que os revolucionários estabelecem entre burgueses e povo, ou fidalgos e povo, ou governantes e governados. A distinção é entre adaptados e inadaptados: o mais é literatura, e má literatura. O mendigo, se é adaptado, pode amanhã ser rei, porém perdeu com isso a virtude de ser mendigo. Passou a fronteira e perdeu a nacionalidade.

As horas passaram. As horas voaram.Tema após tema. Delírio após delírio. Lisboa a suar de prazer. Lisboa voraz de música. Lisboa a destilar ânsias de melodia. Os “Village Persons” a sair do palco. Zeus a assobiar pelo meio das barbas, a pedir bis, lá das galinheiras. Neptuno a bater com os pés lá do fundo dos oceanos. Então e os encores? Encore, rien? Atão eles na voltam ao palco?
Voltou só um a anunciar a surpresa. Ricky Reis:

— Thank you, Lisboa. Especialmente para vocês, já em pleno prolongamento, a última surpresa. Para as meninas já tivemos um louro. E agora anunciamos um chocolatinho, bem moreno, para os meninos. É uma jovem promessa de Newark, toca piano e fala inglês: Alícia Chaves.

Por amor de Deus! Ai o nosso coração. Alícia Chaves cantou e encantou em “If I ain’t got you”, dedicado ao líder da banda e seu conselheiro musical, Bernie Soares.

— Esta miúda vai longe... e desnivela-se em conglomerados de sombra, recortados de um lado a branco, com diferenças azuladas de madrepérola fria (página 385)

Final do concerto. Toda a malta a penantes para casa. Músicos e entourage para os bastidores. E o Bernie com tiques de estrela do rock, a lançar olhares libidinosos às miúdas que lhe apareciam pela frente.
Mesa farta, tipo casamento. Bernie mandou-se às entradas: melão de Almeirim com morcela. E verde à pressão.
— Conheço, translata, a sensação de ter comido de mais. Conheço-a com a sensação, não com o estômago. Há dias em que em mim se comeu de mais. Estou pesado de corpo e lorpa de gestos; tenho vontade de não me tirar dali de maneira nenhuma.
E vá de sentar a Alícia ao colo, sem respeito nenhum:
— Ai não te chamas mesmo Alícia Chaves? Chaves é nome artístico, porque a tua família é de Chaves e emigrou para os States... tem piada, só agora é que sei disto... e já te ando a dar conselhos há uns tempos...
As tuas mãos são rolas presas. Os teus lábios são rolas mudas (que aos meus olhos vêm arrulhar). Todos os teus gestos são aves. És andorinha no abaixares-te, condor no olhares-me, águia nos teus êxtases de orgulhosa indiferente. Tu és toda alada (página 292).

Bernie sentia um prazer imenso em ter Alícia ao seu colo. Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.

E a madrugada correu suave. Croquetes, paio, lombo enguitado (petisco alentejano, não conhecem?), batatas fritas de pacote, lagosta à Terminator, aletria, mousse de chocolate caseira, lasagna clássica e vegetariana. Coisas da música.
Depois, Fernando Pessoa entrou no convívio, a esfregar as mãos. O festival tinha corrido bem.
— Amanhã, já sabem. Todos prontinhos às 14 horas, temos um gig em Loures, no Pavilhão Paz e Amizade.

Von Grazen, 28/7/2004, 03h11m

Doping: Coors (Borrowed Heaven), The diary of Alicia Keys, gelados da Hagen-Dasz.

5 Comments:

  • Essas letras de músicas são brilhantes, adorei!

    O Rock in Rio tem alguma coisa de festival pimba, mas tem algumas actuações que valem a pena. Gostei muito do Roger Waters no ano passado.

    Beijinhos

    By Blogger Maríita, at 6:26 da tarde  

  • Isto parece-me uma brilhante mistura da "nossa" Nelly Furtado com o ex-emigrante por terras gaulesas, Tony Carreira.

    Rock in Rio!? Mais uma parolice que desembarcou em Lisboa. Esse nome não faz o mínimo sentido. Infelizmente engolimos tudo!

    By Blogger Capitão-Mor, at 7:42 da tarde  

  • Querida Maríita:

    O pior de tudo é que não fui eu que as inventei. Aquilo é mesmo Alberto Caeiro purinho, Álvaro de Campos sem tirar nem pôr, "picado" dos livros da Ática.

    E o resto é Bernardo Soares, tirado do "Livro do Desassossego", com páginas citadas e tudo, para não haver confusões.
    O José Eduardo Agualusa é que tem razão: esta obra é um manancial inesgotável.

    A Alícia Chaves entrou "de boleia", por eu estar a ouvir Alicia Keys, que aliás "descobri" a ver a participação dela no primeiro Rock in Rio, na SIC Radical.

    No primeiro ano fui ver o Paul McCartney e ainda apanhei um bom espectáculo do Rão Kyao, que havia de entrevistar para a revista EPICUR pouco depois.

    No segundo ano tive uma noite memorável, com Rui Veloso, Carlos Santana e Roger Waters.

    Um beijinho grande.

    Caro Capitão-mór:

    Realmente, o nome é enganador. É tudo uma questão comercial.Aproveitemos o lado positivo: poder assistir a bons espectáculos, embora a preços de "um dia não são dias".

    By Anonymous Luís Graça, at 10:29 da tarde  

  • Eu estive lá no Rui Veloso, Carlos Santana e Roger Waters e adorei!

    Pena não te conhecer naquela altura ainda tinhamos passado uma noite divertida.

    Beijocas

    By Blogger Maríita, at 12:24 da tarde  

  • No que toca a noites, por certo não faltarão ocasiões. O meu problema é mais com as manhãs. Hoje pus o despertador para as 15h30m e só agora consegui sair da cama...

    Podes ficar a saber pormenores sobre essa noite se fores ao "Cidades Crónicas" e procurares a minha crónica "Multidões". É sobre o Rock in Rio e uma agitada sessão de autógrafos na Feira do Livro.

    Muitos beijinhos.

    By Anonymous Luís Graça, at 8:38 da tarde  

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